Cada braço esticava-se até à ponta dos pés, um respirar lento a absorver o nevoeiro que se dissipava. Ao activar a circulação do seu corpo, sua alma precisava de se sentar no seu ninho de madeira. A sensação de estar enrolado num húmido odor, leva-o a cicatrizar o tempo, a morder o cálice do velório. Aconchega cada passo nu, em direcção ao inevitável. Folhas verdes cobrem o caminho, a vegetação pendia no rosto, para trás tinha deixado o berço que o acalmou durante a noite. Nos galhos por onde passava estavam garrafas de vidro penduradas, em cada uma delas estava um ligeiro ferro a bater por fora. Atado ao mesmo galho, à mesma veia. O vento não era forte, mas da brisa que se fazia provocava com que o silêncio deixasse de existir. O tilintar repercutia-se no reflexo da natureza, o espelho que reluz no ar preenchido, em que a ausência de roupa transpirava de verdura o perfume do interior das garrafas. Do qual todas tinham um aroma diferente e especial, um bronze que os primeiros raios da manhã não deixavam que a assustadora leveza de brilhar fosse ofuscada. A imortal luz, elixir do transbordo pelas folhas, o efeito da percussão, reunindo tudo num frasco. Aquele frasco de mulher, a natureza.Num ligeiro monte chegou finalmente à cabana saindo dos caminhos estreitos, da melodia das garrafas de vidro soou na lubrificação da alma, preenchendo-o. Perante a sua casa, o contentamento de vislumbrar aquelas madeiras dispostas à sua maneira fê-lo abraçar suas mãos. Um jeito que muitas vezes fazia. Era um sinal de pós de magia que esvoaçavam pelo ar, um libertar de essência, uma agradável ternura de tornar a ser feliz por pedaços. Pegou nas suas mãos e assentou-as na casa, contornando-a numa roda-viva de sensibilidade. Antes de voltar a entrar na sua toca queria sentir o bater das suas emoções. Um efeito de doçura, como se fosse de alguém da família. Aquela família que nunca teve, aquela carne de sangue que nunca soube donde vinha…
Thursday, September 28, 2006
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