Uma entrada que não possuía chave, com madeira cruzada, uma cruz na parte central da porta. A forma da cruz era simples, não estava cravada na madeira, mas sim rasgando a própria porta dando uma vista para o interior. Puxar uma porta sem maçaneta pode meter confusão, mas não havia necessidade quando a porta não tinha chave, o coração aberto a tudo. Desta vez ele entrou pondo a mão dentro da cruz, e atraindo as forças do interior para ele. A energia desabava na armadura nua, um perfume de sangue que entrava para se firmar no fogo. Ao entrar verificou o que tinha deixado antes da partida para o pântano, permanecia intacto. As prateleiras em volta das paredes, com os seus objectos lá estavam. Na esquina a boneca de trapos com as tranças compridas até aos pés, continuava a sorrir em direcção à porta. Duas tranças alaranjadas, em que na ponta se enrolava uma à outra. Presa à esquina, amarrada ao norte, aos espíritos da vida. Tinha um cálice de bordo prateado de onde bebia a bebida espiritual, feita duma mistura de ervas que tinha que ir buscar às falésias ao pé do mar. Essa mistura era de cor verde transparente, com um cheiro intenso a “veneno”. Este cálice estava sempre no centro duma mesa que estava na esquina junto à boneca. Tudo se bebe no vazio, da escuridão, da luz, ele acreditava que ela o fazia. As suspeitas eram reais porque cada vez que ia pela floresta deixava o cálice sempre cheio, e quando voltava estava a meio. O bordo estava húmido, com lábios marcados a dilacerar o barro. A parte de quando ele ia beber a sua metade, colocava os seus lábios, e antes de ingerir o líquido, passava a língua pelos contornos da marca, num sufoco de prazer. Um partilhar de origens, da essência vital, a dilacerar a seiva bruta da natureza.
Thursday, September 28, 2006
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