Thursday, September 28, 2006

A lama escorre na pele adormecida por dentro do espaço rugoso das suas fendas. O corpo polido com o acastanhado da terra reluz. No vasto pântano que os olhos vislumbram, o silêncio abrasador do fim da tarde acalma o espírito. Neste banho que relaxa, as imponentes árvores fogem na vertigem do céu, quase tudo é colocado em segundo plano. Somente as raízes que adornam seu corpo no lamaçal, o fazem vibrar no fogo do tempo, nos filamentos da doçura, penetrando as arestas, rebuscando a simplicidade do toque. Caído no tronco grosso, tudo se mistura: a casca aromática da árvore, a pele áspera, a terra sufocada na ossada, os filamentos do pólen...Uma embriaguez de sentidos que faz com que a natureza não perturbe o sono silencioso do Monstro.
Sente-se o perfume puro do Éden adormecido no leito, a lama fica seca junto ao corpo, numa dureza de cor. A água gelada molda os pés, estremecendo o forte odor das sequóias. A mesma água, cai das folhas, que desfila por dentro da casca e descai pelos cabelos longos, deixando-os húmidos. O rosto fica ao luar transpirando a transparência, a noite cai. Os cheiros da noite sentem a sensibilidade do corpo banhado. Tudo à volta se retém na suavidade da brandura, no silêncio da paz, na essência das garras. A noite passa no cortar da navalha, forte e retentora, altar de lama, pousio fortificante. Dorme e absorve a força da natureza no cálice da magia, como à espera do levitar da sua alma nos espinhos. Bicudos, rígidos, que podem sair da terra e o levar nos sonhos da copa mais alta, da árvore mais grandiosa. Suavemente os músculos ficam retidos nessa imaginação, mas a melodia da lama, das raízes, aprisionam o calor. A noite passa, e o orvalho faz escorrer a pureza, deixando impregnado o sabor do pigmento.

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